"ENSINE O ALUNO A OBSERVAR" (Sir William Osler)

15 de novembro de 2009

"Bufê delirante" (Bouffée Délirant)

Por Rafael de Sousa Andrade
Estudante de Graduação em Medicina da UFPB / Monitor de Semiologia Médica Resumo
O "bufê delirante", ou psicose reativa breve, caracteriza-se pelo aparecimento abrupto de sintomas psicóticos sem a existência de sintomas pré-mórbidos e, habitualmente, seguindo-se à ocorrência de um evento estressante psicossocial e com evolução para remissão completa. O quadro é semiologicamente polimórfico, agudo e transitório, sobressaindo-se os sintomas psicóticos. Palavras-chave: Ilusões. Alucinações. Transtornos mentais. Define-se “bufê delirante” (ou "baforada delirante") como um quadro psicótico breve, polimórfico, agudo e transitório, com sintomas esquizofrênicos associado com turvação da consciência (confusão mental), excitação psicomotora e comportamento agitado seguido de amnésia anterógrada; se os sintomas esquizofrênicos persistirem por mais de um mês, o diagnóstico passa a ser de esquizofrenia (BALLONE, 2005). Os sinais e sintomas clínicos são similares àqueles vistos em outros distúrbios psicóticos, como na esquizofrenia e nos transtornos afetivos com sintomas psicóticos. O prognóstico é bom e a persistência de sintomas residuais não ocorre. Durante o surto observa-se incoerência e acentuado afrouxamento das associações, delírios, alucinações e comportamento catatônico ou desorganizado. Há componentes afetivos com mudanças bruscas de um afeto para outro, perplexidade e confusão. A descrição original da apresentação clínica contém cinco características cardinais: início abrupto, delírios estruturados com alucinações ocasionais, um certo grau de turvação da consciência associada com instabilidade emocional, ausência de sinais físicos e uma remissão rápida e completa. Registros de psiquiatras franceses mostraram que 40% dos pacientes diagnosticados com bufê delirante foram reclassificados a posteriori como esquizofrênicos (PULL; CHAILLET, 1994).
Ao contrário do que descreveu Paul Legrant - autor que introduziu a expressão 'bouffée délirant' em 1886 - sobre ausência de fator de estresse ambiental, a Organização Mundial de Saúde, através da Classificação Internacional de Doenças (CID), recomenda que esta categoria de psicose deve ser limitada ao pequeno grupo de afecções psicóticas atribuídas a uma experiência existencial recente (WHO, 1992). Assim esse quadro deve ser considerado como uma alteração psicótica em que os fatores ambientais tem maior influência etiológica. Os conceitos nosológicos de "paranóico" ou "reação paranóide aguda", primeiramente descritos por Magnan na década de 1880, e de «psicose psicogênica", descrita por Wimmer, em 1916, referem-se a este quadro. Aqueles termos ainda estão em uso nos seus países de origem, ou seja, a França e os países escandinavos. Ambos os termos referem-se aos mesmos episódios psicóticos de bom prognóstico, não relacionados com a esquizofrenia propriamente dita (PICHOT, 1986). Chabrol (2003) também faz menção ao conflito entre as classificações nosológicas francesa e internacional relacionado com o conceito francês de psicose alucinatória. No entanto, essas discrepâncias são agora amplamente reduzidas pela evolução das versões mais recentes das classificações internacionais. Esse autor afirma que o termo delírio descreve uma desordem psicótica não afetiva aguda e não esquizofrênica, que é muito similar ao transtorno psicótico breve esquizofreniforme do DSM-III-R e DSM-IV, sendo retomada na CID-10 sob o nome de transtorno psicótico agudo polimorfo. Priest e Laffont (1992) compararam sistema de diagnóstico utilizado na França e na Grã-Bretanha e concluiram que os critérios são muito semelhantes, exceto nesse caso, das "psicoses funcionais não-afetivas". Assim como ocorre em relação à maioria das etiologias dos transtornos psiquiátricos, a do “bufê delirante” não é totalmente conhecida. Múltiplos fatores (ambiental, social-econômico e biológico) servem para justificar as possíveis alterações psico-neurobiológicas do quadro (NATHAN; LANGENBUCHER, 1999). Referências SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A. Kaplan e Sadock`s Comprehensive Textbook of Psychiatry. Lippincott Williams & Wilkins Publishers, 2000. WORLD HEALTH ORGANIZATION. The ICD-10 Classification of Mental and Behavioural Disorders. Clinical Descriptions and Diagnostic Guidelines. World Health Organization, Geneva, 1992. BALLONE, G. J. Esquizofrenias. In: PsiqWeb, Internet. Disponível em: http://www.psiqweb.med.br. Acesso em: 11 nov 2009. CHABROL, H. Chronic hallucinatory psychosis, bouffée délirante, and the classification of psychosis in French psychiatry. Curr Psychiatry Rep. 5(3):187-91, 2003. PICHOT, P. The concept of 'bouffée délirante' with special reference to the Scandinavian concept of reactive psychosis. Psychopathology. 19(1-2):35-43, 1986. PRIEST, R. G.; LAFFONT, I. The British and French systems of classification and psychiatric disorders. Ann Med Psychol (Paris). 150(4-5): 313-7, 1992. PULL, C. B.; CHAILLET, G: The nosological views of French-speaking psychiatry. In: Psychiatric Diagnosis: A. World Perspective, JE Mezzich, Y Honda, MC Kastrup, editors. Springer-Verlag, Berlin, 1994. NATHAN, P. E.; LANGENBUCHER, J. W. Psychopathology: Description and classification. Annu Rev Psychol 50: 79, 1999.

Imagem: Foto de "The Shining" ("O Iluminado", no Brasil), filme de terror psicológico lançado em 1980 e baseado no livro homônimo de Stephen King (dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Jack Nicholson, que aparece na foto acima). Foto: www.web-libre.org/dossiers/delire,1559.html